PNCE - Plano Nacional da Cultura Exportadora


Nova lista de sobretaxas da China contra os EUA beneficia o Brasil
Contraofensiva de Pequim inclui soja, milho, carne e suco de laranja, destaques do agronegócio brasileiro


Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços
05 abril 2018 - 07:54

Para especialistas em comércio exterior, produtores de toda a América Latina podem ampliar vendas 

Um dia depois de os Estados Unidos terem anunciado uma extensa relação de produtos chineses a serem tarifados, a China divulgou nesta quarta-feira (4) a sua lista de retaliação. 

Entre os 106 tipos de itens estão soja, milho, carne, suco de laranja, sorgo, trigo, algodão, tabaco, entre outros produtos que compra dos EUA e pretende sobretaxar. 

"Qualquer tentativa de colocar a China de joelhos com ameaças e intimidações nunca terá êxito", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Geng Shuang, ao falar sobre a decisão. 

A medida, porém, pode acabar beneficiando o Brasil e outros países da América Latina, como a Argentina e o Paraguai, que têm boa competitividade justamente em muitos dos produtos agrícolas listados por Pequim. 

No início da semana, a China ainda havia anunciado um aumento da alíquota de importação para o etanol americano, que subirá de 30% para 45% -o que também favorecería o Brasil

"A tendência para a América Latina é positiva", disse à Folha Margaret Myers, diretora do programa latino-americano do Inter-American Dialogue e especialista na relação da região com a China. 

Brasil é o principal exportador de soja para a China. Os EUA vêm logo atrás e vendem quase um terço da produção aos chineses. A soja brasileira, portanto, seria uma substituta natural do produto americano, assim como a carne. 

Analistas e investidores têm a mesma leitura. Embora os chineses ainda dependam das importações dos EUA para suprir a demanda interna, mesmo com as sobretaxas, a medida deve "favorecer produtores da América Latina em detrimento de americanos", afirmou o banco Goldman Sachs, em comunicado a clientes. 

Mas ainda é cedo para comemorar, alertam: as listas anunciadas nesta semana são de negociações em andamento. Nenhuma tarifa foi aplicada, e a China nem sequer anunciou a data em que elas começariam a valer. 

"Há uma cenoura na ponta da vara", afirmou Larry Kudlow, principal assessor econômico da Casa Branca, fazendo referência às negociações com os chineses. "E parte do processo. Queremos resolver isso com o menor impacto possível." 

Mesmo que as sobretaxas sejam confirmadas, a transferência de mercado para o Brasil e outros latino-americanos não é automática, como destaca André Soares, pesquisador associado do Atlantic Council. "Nossas vantagens competitivas são limitadas", afirmou. 

Soares desconfia de que uma tarifa da China sobre a soja americana será de fato aplicada, em razão da grande dependência do país. 

Para ele, o anúncio pretende apenas forçar os EUA a negociar. "Eu não acho que a China quer ficar dependente do Brasil. Isso vai contra a estratégia de segurança alimentar do país", afirmou. 

Além do mais, nem se a China comprasse toda a soja exportada pelo Brasil no ano passado conseguiría suprir sua demanda. Precisa se abastecer de uma gama de países -até mesmo dos EUA, com ou sem tarifas. 

GUERRA

O governo Donald Trump tem promovido uma investida contra o poderio econômico chinês, que já qualificou como "uma ameaça ao poder, à influência e aos interesses americanos". 

A recente disputa de tarifes foi iniciada há duas semanas, depois de uma investigação apontar que os chineses se apropriaram de tecnologia americana de forma desleal, investindo em empresas no país e exigindo a transferência de conhecimento para suas companhias. 

A China disse estar aberta a negociar, mas afirmou que ninguém podería esperar que o país "engula uma fruta amarga". 

Nesta quarta, setores produtivos dos EUA se queixaram da guerra de tarifas e manifestaram preocupação com os seus efeitos sobre a economia do país. 

Além de produtos agrícolas, também estão na lista de potenciais sobretaxas veículos do tipo SUV, motores, aviões e uísque -que atingem setores caros ao próprio Trump em termos eleitorais. 

A gigante Cargill, maior empresa de venda de grãos do mundo, afirmou, em nota, que abriga "entre as duas maiores economias do mundo pode levar a uma destrutiva guerra comercial com sérias consequências para o crescimento econômico e a criação de empregos". 

O governo americano minimiza a queda de braço. "Não é uma Segunda Guerra Mundial", disse o secretário americano de Comércio, Wilbur Ross, à CNBC. 

A Casa Branca argumentou que se concentra em recuperar a competitividade americana, mas reiterou que está aberta a negociar. 

Para Myers, isso só será possível se os chineses derem o primeiro passo. "O adulto na sala, a esta altura, é a China", afirmou.

 

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