PNCE - Plano Nacional da Cultura Exportadora


Película protege frutas e facilita exportação
Embrapa desenvolve produto que permite ao coco verde chegar ao destino, passados 50 dias da colheita, com a mesma qualidade. Para fruticultores, revestimento fará setor ganhar competitividade


Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços
16 abril 2018 - 08:48

A fruticultura é uma das atividades mais relevantes do agronegócio brasileiro. A produção nacional se caracteriza pela diversidade e qualidade de safras que podem ser colhidas ao longo de todo o ano, diferencial que contribui para que o Brasil seja o terceiro maior produtor mundial de frutas. Mesmo assim, o país vende pouco para o exterior. Ocupa a 23ª posição no ranking de exportadores, ficando atrás de nações cuja extensão territorial é bem menor comparada com a nossa, como Chile e Peru. Para aumentar o comércio internacional, a solução vem da ciência, com uma nova tecnologia - uma película biodegradável que reveste a fruta, prolonga a vida útil e mantém as características naturais.

O revestimento, que é comestível, foi desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por enquanto, a película pode ser aplicado somente no coco verde. Além de aumentar a durabilidade do produto in natura, a tecnologia conserva as características nutricionais da fruta, mantendo, assim, a qualidade, mesmo passados 50 dias da colheita. Na prática, a película biodegradável garante que a água de coco nacional possa ser saboreada em outros países assim como é consumida no Brasil - natural ou gelada, diretamente do coco verde.

A película biodegradável é produzida à base de um polissacarídeo e de outros compostos, que protegem a fruta, ajudam a diminuir a atividade microbiana, prolongam a vida útil e conservam o valor nutricional. A aplicação, que consiste na própria imersão do produto na solução filmogênica, é antecedida pela higienização do coco. Após a secagem, o produto está pronto para ser embalado, armazenado e transportado, até chegar ao consumidor final com com aparência vistosa e sem que a qualidade seja comprometida.

A tecnologia é de baixo custo, requer pouca mão de obra e um investimento pequeno em materiais específicos, de acordo com o pesquisador da Embrapa Agroindústria de Alimentos Antonio Gomes, responsável pelo desenvolvimento do produto. "O custo para a aplicação do revestimento no coco está estimado em R$ 0,05, a unidade, ou seja, é uma solução barata e que ajuda a não encarecer a produção", explica Gomes.

A equipe da Embrapa trabalha agora para que o revestimento biodegradável possa ser aplicado em outras frutas. As pesquisas estão avançadas em espécies de goiaba, manga, morango e caqui. Os pesquisadores já sabem que o mesmo composto aplicado, com sucesso, no coco verde, não serve para outras frutas. Os estudos preliminares mostram resultados promissores e a Embrapa realiza cursos, palestras e consultorias sobre tecnologias e práticas pós-colheita, incluindo a do revestimento de frutas.

Mudança no cenário Quando se fala em exportação de alimentos e manutenção da qualidade do produto, é primordial o transit time, ou seja, o tempo de trânsito do porto até a chegada ao destino. O setor de frutas sofre a pressão inerente de produtos perecíveis. Com prazo de validade mais curto, necessitam de transporte adequado e logística eficiente para ganharem competitividade. Estudos da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) indicam que o custo para exportar para a Europa, por meio de transporte aéreo, é de US$ 1 a US$ 1,50, em média, por quilo de fruta. Já em navios, o custo médio cai para US$ 0,30, para a mesma quantidade.

A aplicação da película biodegradável nas frutas pode mudar a competitividade da fruticultura, segundo avaliação de Jorge Luiz Souza, diretor técnico da Abrafrutas. "É uma tecnologia muito relevante para o setor. Existe uma grande demanda mundial pelas frutas tropicais, mas um dos desafios que temos para exportar mais diz respeito à logística, porque o Brasil é um país continental", explica Souza.

O tema infraestrutura e logística está entre as 10 áreas temáticas identificadas no Plano Nacional de Desenvolvimento da Fruticultura (PNDF), que serão contempladas com projetos específicos visando a minimização de gargalos e a melhoria do desempenho do setor. O objetivo é inserir a produção brasileira, com força, na Ásia, um dos mercados mais promissores para o consumo. "O Brasil tem capacidade para aproveitar o potencial desse mercado, expandindo suas exportações", afirma o diretor da Abrafrutas.

A película biodegradável pode ser o fiel da balança entre o aumento das exportações brasileiras de frutas e a estagnação do setor, de acordo com a análise de Eduardo Brandão, assessor técnico da Comissão Nacional da Fruticultura da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). "Essa tecnologia pode aumentar em até 30% a vida útil da fruta. Ela vem de forma muito positiva para impulsionar e dar um ganho enorme de competitividade ao setor", enfatizou Brandão.

O revestimento foi apresentado na última reunião conjunta da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Fruticultura e da Comissão Nacional da Fruticultura. A tecnologia entusiasmou representantes das associações de produtores, exportadores e de outras entidades que vivenciam os gargalos do setor. "Quanto maior for o tempo de vida da fruta para chegar ao destino, com qualidade para o consumo, mais o setor se torna competitivo", enfatizou o assessor da CNA.

Tamanho entusiasmo do setor tem um motivo justo - a fruticultura causa forte impacto econômico no desenvolvimento regional. Com uma área no Brasil de 2,5 milhões de hectares cultivadas de frutas, o setor emprega, em média, duas pessoas por hectare, sendo responsável pela geração de 5 milhões de empregos diretos. Estudo sobre o impacto social da atividade, elaborado pela CNA, mostra uma efetiva melhoria do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em todas as regiões do país onde a atividade se desenvolve.

De Petrolina para a Europa

A tecnologia já chegou ao Vale do São Francisco, onde o produtor Edivânio Domingos da Silva sonhava levar a água de coco nacional para países da Europa. O que era um anseio do produtor começou a se tornar realidade em 2015. Naquele ano, ele enviou 12 mil unidades para a Holanda. Apenas três anos depois, o empresário comemora o sucesso da empreitada. No próximo verão europeu, 500 mil unidades vão ajudar a hidratar populações de Bélgica, Espanha, Holanda e Portugal. "O crescimento do negócio só foi possível porque os cocos foram revestidos com a película biodegradável", comemora o produtor.  

Além de aumentar a durabilidade do coco verde in natura, a tecnologia, desenvolvida pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), conserva as características nutricionais do produto, mantendo, assim, a qualidade, mesmo passados 50 dias da colheita. "Hoje, eu consigo entregar um carregamento para um país da Europa que chega ao consumidor final em 25 dias, com uma aparência de produto recém-colhido, com gosto natural, sem alteração de sabor, aroma e cor", comemora Edivânio Domingos. 

Nos 10 hectares da propriedade de Edivânio, a fazenda Coco do Vale, localizada na zona rural de Petrolina, em Pernambuco, são colhidos 80 mil cocos verdes por mês, em média. Até 2014, o produtor abastecia os mercados dos estados de São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro, além do Distrito Federal. A vida útil do coco verde, de 15 dias, aliada à falta de uma logística eficiente para o embarque do produto, no entanto, dificultavam a exportação. Para chegar ao consumidor final, na Holanda, eram quase 50 dias - da colheita, no Vale do São Francisco, t  

Hoje, Edivânio trocou o porto de Salvador pelo de Natal, no Rio Grande do Norte, mas os 250 quilômetros de distância que ganhou no trajeto compensa com a rapidez com que o processo de embarque é realizado. Em Natal, sai um navio por dia para a Europa. O carregamento leva entre 12 e 15 dias para chegar ao continente e rapidamente vai para a prateleira, para atender o consumidor final. "Os meus clientes estão muito satisfeitos com o produto e um deles vai até distribuir por vários outros países. Estou satisfeito, porque o mercado internacional é um mercado exigente", resume Edivânio. (MG)

 

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